Do político e do burocrata

“É a economia, estúpido!”, dissera um assessor de Bill Clinton — e a doxa apregoa, desde então com inigualável ênfase, que a qualidade do governante misura-se nas estatísticas financeiras. Foi, porém, por mentir ao Congresso sobre sua conduta moral, que o mesmo presidente assessorado viu-se em maus lençóis, por um triz não destituído de seu mandato. Um relance humano entre as engrenagens mecanicistas do mundo moderno.

Desde o momento em que se assentiu confundirem as artes, tomando Economia por Política, Política por Direito, Direito por Ética e Ética por Profissão de Fé Civil, cada qual se converteu em merce de um comércio maquiavélico, à mercê das conveniências, e para prejuízo de suas finalidades precípuas. Fraturada a especificidade da política, a atividade do homem político é a de um cego que tateia pelo escuro de um ambiente estranho, guiado por quem não sabe para onde deseja ir.    
 
À diferença do maquiavelismo estrito, propugnante da concepção que herdamos da Renascença — os dois corpos do Rei, isso é, a distinção entre moral privada, aplicável aos homens (e ao soberano, enquanto homem), e moral pública, permissionária, em seu exercício, das máximas atrocidades para a manutenção do poder — a perversão contemporânea não atribui duas, senão plúrimas naturezas ao príncipe, todas dispostas a negar-lhe a contingência humana e fantasiá-lo como divindade provedora, inventora de direitos, fautora de realidades. 
 
A extravagante confusão requer dos súditos não a altivez das antigas liberdades, nem as prerrogativas dos valentes forais ibéricos, quando a sociedade era moralmente sã e o direito florescia da realidade, emergindo dos vínculos, juramentos, gratidões e obrigações participáveis a todo o grupo, o qual percebia dos direitos o valor e os transmitia, de geração em geração, como herança preciosa a custodiar. Distintos brasões, tradições e culturas viam-se garantidos em suas autonomias intelectivas e, inobstante, conviviam e colaboravam para a edificação de uma civilização de plenitudes: dos casarios contíguos do burgo, como dos vilarejos esparsos do campo; dos palacetes e castelos, como das mansardas e choupanas, cada bairro, cada comuna reservava seu peculiar talento, traços e cores a edificar em catedral os valores inegociáveis. E, se todavia única sua arquitetura, remetia sempre à unidade da Cristandade. 

Assim também os homens, igualmente bons e dignos, porém diversos entre si em graus de excelência, conviviam em comunidade e por ela cooperavam, encontrando-se na pessoa do Rei e da Coroa (signo da “imago Dei”). 

Muito se perdeu. O soberano não mais é emblema de leis perenes e de espaços concretos onde o humano se manifesta quotidianamente, defendendo-os contra o risco perpétuo da desumanização; tampouco é pináculo esmerado a apontar exemplarmente para o Altíssimo. Não é um sábio magistrado a professar, entre as margens do humanamente concebível, a possibilidade da justiça e da misericórdia perfeitas. 

O soberano contemporâneo é um mesquinho contabilista de prebendas, eleito dentre os piores, pelos piores, para afagar dos piores a consciência de sua inferioridade e negar aos melhores o vigor de suas qualidades, usurpando-as pela exaltação ao vício (tipicidade democrática, anotaria Aristóteles). Com ditas finalidades, periodicamente reencena uma farsa, destinada a dirimir o contato entre a população e a experiência real, e a convencê-la de que a transcendência, sob este corte ou aquele, possa ser esgotada pelo homem através da pura libido dominandi. Surge, então, uma segunda realidade (como a denomina Voegelin), inteiramente retórica, forjando direitos e deveres em palavras ocas. Sua validade resguarda-se contra a percepção de falsidade, tanto através do apelo a pseudo autoridades nela interessadas, quanto do apelo à popularidade das ideias que a sustentam. Inflaciona leis, carimbos, procedimentos que dissipem a natural desconfiança sobre sua legitimidade, despersonalizando seus sujeitos. A imagem de Deus não tem mais face ou vontade (potência motriz da alma): é um Estado de pedras e tijolos, frio e vazio de propósitos, voltado inteiramente a fomentar e saciar apetites concupiscentes: imago hominis reduzida ao mais hobbesiano nível de existência, que recusa realidade a tudo a que de superior se ordenava a ética cristã e clássica. Nesse arranjo, vendem-se títulos em favor da abdicação da razão e do espírito, prometendo-se-lhes as recompensas do céu em vida. Não por suas excelências, sequer por benevolência. Promete-se-o a todos, igual e simultaneamente. Bastará, dizem, demandar, e a aclamação dos povos o fará.

O momento desponta em que o político se torna o responsável, para o bem e para o mal, por carteiras, cofres e despensas de cada um e cada qual, criminalizando a verdadeira compaixão, porque concorrente de seu domínio. A degeneração do papel político nunca se dá sozinha — é a sociedade inteira a decair com ele.  

 
As maiorias eleitorais, a quem o redistribuidor (não do comum, mas do alheio) presta tributo, alvoroçam-se no instante do pleito como hienas à caça e, passado ele, durante três ou quatro anos deitar-se-ão cativas, passivas e lascivas, à espera de espólios a chamar de seu quinhão. Nada anseiam de elevado e, de fato, pela educação que receberam, sequer cogitam que coisa maior possa existir — algo para além da escuridão onde nasceram. Não há farol que a elas sinalize a finitude das trevas, a saída da caverna, o júbilo da luz. Quanta disparidade para com os leões dos tempos de seus avós, em constante vigilância pela liberdade do Reino, e ciosos da sua própria! Leões que, diante das leis eternas, sabiam-se dóceis ovelhas; mas, para a defesa destas mesmas, mantinham suas garras afiadas. Em razão, pois, do bom combate a que se chamam as almas nobres — não para exigir de outrem o almoço grátis. Caridade e amizade, não escravidão e rancor, eram o que movia o virtuoso até a praça da política.

Eis o que é a política, quando deixa de versar sobre valores e passa a mero ardor contábil: a um só tempo, instrumento e signo de sociedades decadentes — fenômeno que se descobre no estágio da pilhagem, quando as últimas gerações de um povo põem-se a devorar, inconscientes, o legado de seus antepassados. Esta é a geração sem estadistas, que dedica toda a força a rejeitar homens de valor, pensadores e a verdade mesma. É a geração fascinada pelo autômato industrial: o administrador; o burocrata.

Pelo visto, a verdadeira política dispõe sobre objetos muito mais augustos que a economia — e, de fato, sobre esta, pouco pode dizer satisfatoriamente. Trata-se do produto natural do convívio entre homens bem formados, voltados todos para um Bem a respeito do qual concordem suficientemente, de maneira a encará-lo como objetivo comum. É, pois, um Bem que, em certo sentido, pode-se dizer imperativo, pois se afigura da natureza dos entes, mas cujo reconhecimento depende da aquiescência voluntária à expressão da Providência sobre o mundo (fiat voluntas Tua), tanto quanto da compleição individual por buscá-Lo. Daí a necessidade de conhecer a natureza íntima do líder, seus traços de personalidade e caráter, a fim de aferir sua conformação às virtudes habituais naqueles que auspiciam o Bem.

Se o líder magistrado encontra-se pessoalmente ordenado para o Bem, poderá igualmente proporcionar o ordenamento da comunidade para idêntico fim, caso logre a fortuna de encontrar pares dispostos de maneira semelhante.

De tal convívio emergirão boas leis e bons comandos, e é de se esperar que, sob boas leis, a produção e os negócios igualmente lucrem e prosperem. Mas este é, no mais das situações, efeito colateral da boa política, não sua finalidade última. Políticos e legisladores não são, nem devem ser, gerentes e industriais em forma mentis, pois de industriais e gestores justos muito carecem as atividades afeitas a grandezas que se comutam, não convindo elevar uns sobre os demais. Conflituosos, afinal, seriam seus interesses, como errática sua consequente apreensão do Bem Comum. Sobretudo porque a virtude magistral — e a Justiça, em sentido lato, é a virtude por excelência — pode demandar sacrifícios inatingíveis a quem não compreenda valor superior ao cunhado nas moedas.

As máximas adversidades inerentes ao ser humano, e também suas glórias, não dizem respeito às finanças — questão eventual e acessória.

É esta uma das perversidades emergentes do presente Estado de Bem-Estar Social, que delega ao político a última palavra sobre a arte do sapateiro, do alfaiate, do médico, do professor, do agricultor e do engenheiro, como se fosse o Estado o fundamento da ordem justa, e não o contrário. Exige-se do político a dedicação simultânea e exclusiva [sic] como mestre de obras, diretor de planos de saúde, gestor previdenciário, pedagogo, banqueiro, financista, acionista, mecenas, juiz e general. Uma multiplicidade de perícias conflitantes que, mesmo se possível concentrar em um só homem e sua equipe, consumiria de plano suas forças em tarefas técnicas secundárias, deixando a descoberto sua função essencial — a disposição para a virtude ao versar sobre os empecilhos, comuns e extrínsecos, à felicidade humana.

Um ente versátil em habilidades tão refratárias dificilmente cultivará a faculdade de contemplar, com sabedoria, a integridade do homem e da sociedade. Ao revés, é provável que reduza todas as experiências humanas a um mínimo denominador, de forma que as possa realmente abarcar. O governo que tudo controla, nada governa — e converte em nada o homem, a quem toma por dígito em planilhas de planejamento. O governante que, em vez de apontar para os potenciais incomensuráveis do humano, nivela-os rente ao solo para que não se lhe escape, é a perdição completa do ideal católico esperado de um estadista. Não é um regente, mas um tirano; corrompe tudo o que toca, e quanto mais obras produz, mais mal espalha sobre a Terra.

A tragédia inescapável ao Estado que promete o paraíso terrestre é entregar, em bandeja de prata, a morte da política pelas mãos do burocrata.

Acareações e sabatinas circunscritas a estatísticas gerenciais seriam meios viáveis para a escolha do gestor de alguma multinacional ou fundo de pensão, talvez. São instrumentos adequados à sua técnica. Para a escolha de um político, dizem pouquíssimo. Encobrem mais do que revelam. Incentivam a cupidez dos que se querem aproveitar dos negócios públicos para usufruto próprio; apartam interesses, em lugar de estabelecerem “common ground” seguro (um “moral high ground” admirável seria ainda mais desejável) ao desenvolvimento das personalidades.

Há que restaurar a política e as instituições que lhe são próprias, devolvendo às demais artes os espaços que aquela, inadvertidamente, conspurcou ao arrogar para si (nisto esquecendo de si mesma). Os valores do político não se podem traduzir, sem mediação, em valores econômicos, nem gráficos, nem índices. Não é papel do político produzir riqueza, nem usufruí-la às custas de quem a produz por seus dadivosos méritos. O papel do político é liderar, não usurpar. É ponderar, não iludir. É, naquilo que lhe compete, ordenar segundo a Justiça, não tumultuar por codícia ou malícia. É reger as potências magnas do homem civil, incentivando neste hábitos de virtude. Quem o lidera, ou quem tem palavra sobre suas leis, deve assegurar a coerência entre bens, encargos e méritos. Como poderia oferecer justiça ao próximo aquele que não a exerce sobre si mesmo? Para tanto, há que ser coerente, não sendo possível que tenha interesse na ruína alheia, nem que se dirija para a ruína de sua própria alma.

A alma não se vende por poder: é razão de seu merecimento, e das honras, e das condecorações. Seu valor supera o de qualquer país, e se multiplica na amizade irmanada na verdade. É o papel do político: propiciar a amizade entre os meios e os fins do homem, cuja natureza é social. Amizade que se deve consubstanciar desde sua mais imediata comunidade: aquela estabelecida por seu coração e sua mente. É o ponto donde se irradia para a família, as associações, ágora, templo, província, nação — o inteiro gênero humano, em unidade de propósitos. Opera à semelhança do maestro da Sinfônica: conferindo a cada instrumento o tempo oportuno à sua função, sustenta a consciência do sentido geral e medeia a mais bela sinfonia, conquanto não tome parte em um só acorde. Se não respeitar de cada músico o talento, ou se lhe faltar à música a filia, ambas as vias conduzem à perdição. São os valores, estúpido, os princípios ordenadores da harmonia social.

Não se troca a alma por parlamento ou coroa: a magistratura é a oportunidade de comunicar as leis legadas pela Pátria à bem-querência fraternal, pela confiança na capacidade do próximo para a virtude. Eis uma comunhão espiritual possível apenas a homens cujas almas comunguem fins e meios. O magistrado, corrompido em seu íntimo, serve com adequação, exclusivamente, à sociedade dos corruptos. Quem lidera deve, dando os passos certos e exemplares, saber — e mostrar saber — aonde quer chegar. Se o fim é bom, e adequados os meios, a jornada será justa e de bom grado se caminha.

O Rei não possui dos corpos, pois é homem e não quimera. Uma só é sua cabeça, como una há que ser sua vontade. Deve viver segundo o que acredita, e deve acreditar no que é verdadeiro, adequando o intelecto às coisas, e a vontade à alma. Estando assim disposto, pode cruzar os portões do lar e da família, derramando sobre a polis os frutos de uma árvore sadia. Eis um homem sábio a quem confiar o governo de qualquer coisa, a autoridade sob a palavra da lei, o voto na assembleia das nações. Sua conduta reta conduz retamente.

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Considerações prévias ao estudo do Decreto nº 8.243/14: a “participação social”, essa desconhecida – ou: dos verdadeiros demofóbicos

A justificativa oficial para o famigerado Decreto nº 8.243, de 23 de maio de 2014, editado pela Sra. Dilma Rousseff a pretexto de instituir certo “Sistema Nacional de Participação Social”, alega propiciar ele meios de inserção da sociedade no aparato do Estado. O que seu texto assegura, no entanto, é a presença maciça de burocracias partidárias (oriundas do para-Estado ao qual fantasiam por “sociedade civil organizada”) em todas as instâncias da administração pública. Na mais benevolente hipótese, é um engodo a maximizar a já pungente ineficiência do serviço público. Na pior, engatilha mecanismos preocupantemente semelhantes aos que destruíram o controle legal sobre o exercício do poder em diversas nações vizinhas, mormente a Venezuela. Entre ingenuidade e crime, irrelevantes as intenções, sobressalta seu caráter lesivo às instituições. Esse cheque em branco não convém assinar.

De qualquer forma, antes de esmiuçar a dinâmica normativa em comento, é preciso que desarmemos uma cadeia nem sempre sequencial de premissas mal formuladas e objeções insuficientemente refletidas, de que diversos apparatchiks se vêm aproveitando à guisa de sustentar a pureza de sua armadilha.

1. Governo é governo. Administração é administração. O decreto não garante qualquer controle popular sobre o que quer que seja, mas ingerência direta de esbirros partidários em cada instância administrativa de todos os órgãos de Estado. Eis a finalidade originária, transbordante até mesmo da linguagem adotada, que denota a ausência do critério de generalidade tão necessário às boas leis e, ao revés, de plano denuncia seu direcionamento partidário.

2. Deliberadamente confunde-se participação social com democracia direta — instituição já modulada, cum grano salis, pela Constituição Federal. Extremistas de esquerda entre nós sempre alegaram o intuito de “ampliar os espaços de democracia direta” — entenda-se, ampliar para além das possibilidades constitucionais. Para que funcione, uma idealizada democracia direta aos moldes gregos exige adesão total ao modelo grego. Modelo, isso é, com cidadania censitária e escravos que produzam uva e vinho a sustentar quem passa os dias a deblaterar na ágora. Se queremos democracia ateniense, deixemos claro de antemão quais de nós seremos os cidadãos, e quais os escravos, a fim de que nos ponhamos de acordo. De outro modo, se é para a sociedade indicar “delegados” junto às instâncias administrativas, tais delegados já existem e se encontram nos parlamentos, eleitos por voto direto de um a um dos brasileiros, e não pelo poder unipessoal do tirano de Siracusa.

3. “Ah!, mas a Suíça…”
Democracia direta aos moldes suíços nada tem a ver com lobistas privilegiados a fazer diuturna pressão sobre salas reclusas, em nome de baronatos sindicais e bandeiras cor-de-sangue. Em vez de concorrer contra o postulado democrático “um homem, um voto”, o sistema helvético maximiza-o, oferecendo a cada família e comunidade a oportunidade de, mediante regras sólidas e cristalinas, participar tranquila e pontualmente do processo legislativo — isto porque pressupõe observância máxima dos princípios de transparência e subsidiariedade. Serve ao controle apriorístico da sociedade sobre o Estado, mediante ritos públicos, assegurada inviolável a autonomia do cidadão e de suas livres associações.

Só pode subsistir demonstração assim bela de coesão social onde os postulados fundantes da civilização são seu substrato, não mais sua pauta, pois de violá-los jamais se cogitaria. Os referendos dos cantões nada são senão pedidos de permissão, com delimitadíssimo escopo, acerca de negócios estritamente públicos. A seu turno, o “sistema participativo” do Decreto, do qual só participa quem já inserido se encontrava nos círculos nebulosos do poder central, opera por princípio inverso: controle do Estado sobre a sociedade, verticalmente imposto em função de vontade única do partido presidencial, assim assegurando este sua pretensão de onipresença, como transparece de sua fundamentação ideológica (devaneio gnóstico, sublinharia Eric Voegelin, pois uma tal ideologia evidentemente assume o Estado como imanentização de um atributo divino — discussão que o momento infelizmente tolhe).

Enquanto o modelo de participação suíço dirime o espaço de discricionariedade governamental e limita a ambição de potência do Estado, o arranjo petista desenha-se a fim de legitimar o arbítrio das turbas por sobre as leis. Conforme se abstrai de São Tomás: se o fim é péssimo,  os meios não se salvam.

4. Chegam-nos ecos do discurso da elite governante (toda branca, por sinal — está na moda tomar melanina como argumento, e moda estatal é como decisão judicial: convém à saúde obedecer) inferindo que a oposição ao decreto — ou, mais genericamente, aos “instrumentos de participação popular” — traz por base reações de classe. Quem ousa discordar da imposição presidencial nutriria “horror ao povo”.

Amigos do povo, logo se vê, são apenas os senhores do Estado. Talvez por isso sintam-se tão livres a deitar sua mão pesada sobre a carteira do brasileiro,  sequer vexados de não pedir licença. Também por isso a balbúrdia da coisa pública, como quem dissesse à população, “Entra, amiga, e não repara na bagunça!” E, assim fazendo, arrogam-se ainda o título de defensores do livre debate.

A despeito do expediente sofista (sobre isso, revisitemos Schopenhauer e a erística), resta um argumento pertinente. Quem teria do povo tamanho horror a ponto de inventar para si sociedade paralela, escolhida a dedo por uma única pessoa com vistas a pautar o Estado inteiro em tempo integral? Quem seria demofóbico ao extremo de, “em nome do povo” (imaginando-se sacerdote que age “in persona Christi”), impugnar a legitimidade das instituições democráticas sob a alegação de insuficiência do cidadão anônimo — menor das minorias — e exigindo sobrepor-lhe “povo” composto apenas pelos exclusivos indicados do Executivo?

5. Sempre o mesmo expediente cuidadosamente estudado: os que se adonaram do Estado impõem à sociedade uma exigência sabidamente absurda. A sociedade rejeita-a. Os donos do poder afetam ares de escândalo contra os que “interditam o debate”, fingem revisar o plano e retornam com o mesmo projeto, agora em escala ponderada, congratulando sua própria generosidade. Para eximirmo-nos da pecha de intransigentes, aceitamos a pretensão — que no mérito jamais se alterou —, perdendo de grão em grão a liberdade. Técnica de manipulação empregada amiúde com fins de engenharia social. Ei-la de volta.

6. Verdadeira “participação social” atinge-se não com multiplicação de estruturas burocráticas em uma escalada arcana, senão pela desestatização da experiência humana. Em vez de clamar por novos cargos e poderes, a Presidência — caso sincera em seu intento — há que abdicar de muitos que já possui, restituindo recursos e responsabilidades legitimamente parlamentares, estaduais, municipais, empresariais, associativas, familiares, pessoais. Há que devolver aos indivíduos e aos corpos intermédios as rédeas de suas vidas. Há que reconhecer a premência de valores que não se submetem a voto e não se traduzem por números, pois perfazem critérios de validação precedentes a qualquer eleição. Há que compreender, ainda, que comissões, conselhos e reuniões, mesmo multiplicadas ao infinito, não podem compelir um só ser humano a comportar-se como animal de rebanho quando maiorias de ocasião decidem marchar rumo aos infernos. É direito inalienável do homem responder à maioria com as palavras de Fernando Pessoa: “Vão para o inferno sem mim! … Para que havemos de ir juntos?”, rumando enfim ao outro lado sem ser perturbado. Participar é poder discordar.

A Voz [de Ventríloquo] das Ruas: sobre o “plebiscito truffa” do PT


“Plebiscito truffa”. A expressão é italiana, e costuma fazer referência à seqüência de referendos estabanados, caracterizados por coação e unilateralidade, promovida durante a unificação forçada do país. Um após o outro, os territórios outrora independentes viam seus invasores a convocar votações que confirmassem a adesão da população local, “livre e espontaneamente”, à nova realidade política que as armas já haviam estabelecido. Votavam a quinta coluna e os conduzidos pela força; a maioria calava. Quando se abriam as urnas, surpresa alguma: unanimidade.

Uma anedota contemporânea ilustra bem a situação: no dia do plebiscito, saindo do local de votação, um agricultor famélico indaga ao outro, seu conterrâneo:
“ — E aí, votou em qual opção?”
“ — Eu? Nenhuma. Quando o mesário me entregou a cédula, já estava preenchida e tudo.”
“ — Bah! Eu também. Tanto melhor; assim cansa menos.”
“ — Pois é. Menos complicação…”

“Truffa”, aqui, está por “fraude”, “burla”, “enganação”, e sua etimologia efetivamente remete ao doce que, em português, conhecemos pelo mesmo nome: nesse caso, a massa vistosa oculta talvez vento, talvez veneno por recheio.

Para o mês de setembro, laranjas do petismo e aliados prometem realizar mais um “plebiscito truffa” no Brasil. Não é o primeiro no currículo da gangue — outros já houve, todos a fim de mascarar como “apelo popular” a pauta de uma camarilha extremista, tão organizada quanto demograficamente insignificante. No passado, os alvos incluíam dar calote nas obrigações do Estado; impedir a compra de produtos provenientes do “império ianque”; reestatizar empresas que, falidas enquanto estatais, enfim prosperavam sob novas gestões privadas.

Curiosamente, votações dessa estirpe corriqueiramente revelam por resultado final a concordância de mais de 90% dos aderentes para com a proposta dos organizadores. Índice de aprovação digno da Coréia do Norte. Espantoso como os partidos que ostentam em seus programas os mesmíssimos escopos nunca obtenham adesão maior que a de 5% do eleitorado, sempre que submetidos ao crivo de eleições fiscalizadas por órgãos um tantinho mais isentos do que eles próprios: e.g., as quatrienais para os parlamentos.

De volta a 2014.
A próxima peça da trupe, relatávamos, sairá do forno em setembro, e pretende ser “a trufa das trufas”: nenhuma congênere pregressa foi preparada com tamanho esmero, nem símile antecipação. Assam-na desde as manifestações de junho, há lá se vai um ano.

A idéia: que os votantes digam “sim” ou “não” à instalação de uma nova Assembleia Nacional Constituinte, portanto plenipotenciária, a fim de reescrever, do zero, a organização política do país. Um cheque em branco para matreiros de toda ordem, que os habilitaria a, em tese, abolir até mesmo a separação de poderes, como se fez na Venezuela, Nicarágua, Bolívia, Equador, ipso facto na Argentina e, de meses para cá, querem alguns repetir até mesmo no Chile, uma vez estável e exemplar.

Dirá alguém que a meta, engendrada como que de afogadilho por massas de voluntários, soaria romântica e, quiçá, ingênua. É evidente que votação extraoficial, gerida pelos próprios interessados; incapaz de validar a identidade de seus participantes para que se assegure a paridade um homem – um voto; sem segurança sobre a inviolabilidade das urnas; sem contraditório entre as opções estabelecidas; sem, a bem dizer, efetiva alternativa entre os itens a escolher e, portanto, sem decisão a oferecer, não serve sequer para estatística.

A intenção, contudo, nunca foi a de realizar uma consulta popular. Foi, sim, a de gerar fato político, que os mais hábeis a postos haverão de explorar em seu sequioso benefício.

Não há quem — sequer entre seus organizadores, oficiais ou oficiosos — ignore a completa futilidade do “plebiscito” enquanto tal. Absolutamente ninguém nutre a ilusão de que encenação como essa, operada aos moldes de eleição da UNE (uma escolha entre o “sim, senhor”, o “certamente”e o “pode ser”, seguindo “amplo debate” entre o vermelho, o escarlate e o carmesim), venha a causar por si os efeitos que proclama almejar.

O plebiscito é apenas elemento a mais, talvez o mais visível, na continuada desconstrução das instituições. Corrosão inicialmente silenciosa, como a de cupins sob a madeira. Serve a alimentar a retórica da “insatisfação difusa”, do “clamor por mudanças” nebulosamente esboçadas — jamais esmiuçadas —, que balizarão esforços menores e mais pontuais de dilapidação do Estado de Direito. Tudo em nome da voz [de ventríloquo] das ruas.

Entre os organizadores, segundo dizíamos alhures, não sobra espaço para ingenuidade. A bibliografia a eles dirigida, que propugna dissimulação e mentira como métodos fundantes da ação política, principia no distante Maquiavel, banha-se de Marx, agita-se em Lênin, grassa o estado da arte em Gramsci e renova-se para mais contemporâneos instrumentos nas penas de Saul Alinsky, Marcuse, Horkheimer et caterva.

A única ingenuidade acometida ao campo observado é a por esses mesmos esperada: a do “idiota útil” auspiciado por [ei-lo outra vez, o Vladimir Ulyanov] Lênin, e fabricada ad hoc, em escala industrial, dentre as linhas de montagem prediletas de mestres e doutores orgânicos, ad aeternum tributários do erário nacional.

Se considerarmos a tese de Dr. Andrew Lobaczewski, o “idiota útil” tende a apresentar comportamento histérico, estudadamente alimentado por dirigentes de têmpera psicopática. Os “plebiscitos populares” constantemente ventilados por tais esbirros partidários (e, segundo sabemos de Gramsci, tais segmentos políticos deliberadamente confundem partido e Estado, governo e administração, expandindo uns para avolumar outros e, ao cabo, entre eles engolfar toda a dinâmica social) são meio excelente ao incentivo da histeria coletiva necessária à concentração do poder, interesse último de seus manipuladores.

Por trás da cortina de fumaça e trevas, já sem a barba dos 1960, trajando Armani e perfilando os cabelos alvos, os verdadeiros narradores dessa peça transitam entre os salões de governo de mais de um continente, e não carecem sair às ruas para sujar os sapatos a recrutar eleitorado cativo. Aguardam sem rumor em gabinetes confortáveis, notavelmente demofóbicos, onde a “voz das ruas” entra apenas assim: filtrada, e quando (ou se) convidada, segundo a conveniência. São ladrões de verbas e de almas, e estão a preparar a ocasião.

Em cada coração, um monastério

Era uma vez uma civilização. Nela, havia a arte. E a arte que nela havia abria vias até o céu. Céu pleno de Vida — Vida nova, verdadeira, Vida que desconhecia fim. Ali, existia o Amor autêntico, tão belo quanto se diz.

Infelizmente hoje, caros amigos, nada mais daquilo resta. Nada, senão as sombras das realidades que foram; ruínas e despojos de noções e virtudes que se pensavam eternas. Nada mais subsiste além do sonho, do desejo, da oração, da confiança em um milagre para a restauração universal. O milagre do Amor onipotente.

Perguntai-vos entrementes, que fazer? Amai-vos vós outros, exilados das verdades esquecidas. Encontrai-vos e amai-vos, pois sois ora vós os últimos. De modo que sereis os primeiros. Cada coração verdadeiro é monastério, ei-la a nossa situação nestes dias escuros. Deveis salvar, entre as muralhas do pensamento individual, cada fascículo ainda sobrevivente dos impérios olvidados, para prover uma vez mais ao cultivo dos bens incultos, campos abandonados e aldeias desertas que o novo tempo acumula, a nova paisagem revela.

Agora, os homens crêem que tudo no mundo — quando não o mundo mesmo, vezes tantas — seja convenção, arbítrio, livre disposição. Não reconheceriam autoridade suprema sequer se postos face a face ao Criador. A terra, porém, conhece uma só Lei, e essa mesma terra os há de chamar pelo nome. Tal é a natureza das coisas: sopram as areias do tempo, mas, por mais que pareça enuviar-se, nenhum bem verdadeiro em verdade se perde: comunicam o Bem, que no eterno perdura.

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Heróis e multidões

Há quem chame “heróis” os manifestantes que aí estão. Nunca vi herói que se escondesse em multidão. Observando bem, a relação entre as massas e os verdadeiros heróis, mesmo quando entremeada por instantes de glória e deslumbramento recíproco, é vitimada por uma constante tensão: a alma grande deve sempre lidar com o desprezo, a raiva e a incompreensão das maiorias.

O herói é um indivíduo que eleva suas qualidades para além do ordinário, uma alma que transcende. A multidão amorfa é o oposto: o perdimento das qualidades pessoais, a dissolução de tudo o que há de único e sublime, em favor de um denominador comum para com o mais vulgar e instintivo.

Sócrates foi um herói. Foram-no os profetas hebraicos. O herói dos heróis foi Jesus Cristo, o Verbo que por amor fez-se carne, e mesmo d’Ele a multidão quis a cabeça em plebiscito, porque era amor em verdade e a verdade não convém. Os heróis da ficção seguem o arquétipo: a multidão pode idolatrá-los durante algum tempo, mas finda invariavelmente a detestá-los (como sói acontecer aos ídolos, porque necessariamente contingentes). O herói é a formiga que se prepara para a aventura — “ad ventura”, o porvir — e tenta demover a cigarra da situação confortável em que se encontra, repleto de compaixão. A cigarra nunca reage bem ao estímulo.

Se o herói pudesse confundir-se com a massa, não seria digno de tal nome. O ouro só é precioso porque difere das rochas entre as quais surge e com elas não se confunde; suas propriedades são exclusivas. É o único metal que resiste aos árduos processos do garimpo, o vestígio excepcional que, recusando-se a acompanhar os outros, agarra-se às calhas e repousa nas peneiras contra a pressão da enxurrada.

É por isso que os heróis, no mais das vezes, passam-se por reacionários. “Uma coisa morta segue a correnteza”, dizia Chesterton, “é preciso estar vivo para contrariá-la”.

O herói é sempre um, não muitos, jamais todos. Heróis podem unir-se, por que não?, mas seguem sendo cada qual receptáculo de sua virtude. O sujeito da virtude não é o bando; a companhia é a circunstância em que se manifesta.

Herói é este que segue ao lado, com a imagem. Herói desconhecido, que, posto diante a uma corrente inescapável, feita com aço, sangue e ossos multitudinários, parou a marcha, frenou a coluna de blindados e, sozinho, disse “não”. Reagiu, o reacionário! Não se deixou levar! Em seguida, tudo indica, foi vítima de um “ato isolado de vandalismo” bastante comum nos Estados totalitários — o Estado-legião, que se afirma a encarnação perfeita e sintética, o alfa e ômega do “interesse geral”, da “consciência universal”, do “bem de todos”.

*Escrito aos 25 de junho de 2013.

“Os laços te livrarão!”

«Os laços te livrarão!
Olha a vinha: está amarrada.
Mas vai-se erguendo do chão
Perfeitamente aprumada.»
(WEBER, Dreizehnlinden)

Muitos falam em “livrar o Homem de suas amarras” e, no entanto, permanecem eles próprios bem presos rente ao chão. Pois como pode a semente germinar livre da terra?

Tratam por “correntes opressoras” os laços que nos unem — laços sem os quais seriam irrealizáveis as liberdades verdadeiras: liberdades expressas por alternativas cogentes entre futuros contingentes, a fim de que a vontade se expresse sobre seu objeto certo, o bem; não por folhas em branco, vácuos perfeitos, arbítrios ilimitados, vazios de ideal. São os laços os caminhos que temos a trilhar. Sem os elos delineados pela sociedade sã, o homem nada escolhe, nada realiza; é vítima das marés.

Richard_Redgrave_-_The_Emigrants'_Last_Sight_of_HomeBradam aqueles contra todos os valores, e acusam aquilo que sempre houve e sempre foi de “preconceito” e “temerário”. Nada passaria de aleatória convenção: negam a virtude da família, da maternidade, da comunidade e da propriedade. Cherchez l’argent — sigamos o dinheiro — e, todavia, no final do arco-íris do [a]moralismo hodierno encontraremos grandes famílias patriarcais e dinásticas, ciosíssimas de suas heranças e afeitas a seus círculos restritos.

Há quem negue a virtude. Há quem negue o Bem. Há, mais que todos, aqueles que primam por negar o mal. Segundo estes, no mundo, nada é melhor ou pior; tudo é igual. Convidam-nos a assim pensar e assim agir, e por tais parâmetros levar a vida: como charadas na escuridão. Mas eles, não. Eles, quando junto aos seus, não rezam sua filosofia. Desejam aos amigos os inquestionáveis méritos do bom, belo e justo, que então percebem bastante concretos, objetivos, inimitáveis. Insubstituíveis. Aos demais, a novidade e a moda; para eles próprios, a lei natural perene, sólida e inquebrantável.

Cuidado, pois, ao soltar amarras: uma vez deixada a alma ao sabor dos ventos, nunca se sabe para onde a irão soprar. Para o pássaro que toma o ninho por prisão, pior prisão que o ninho há: é não ter onde pousar senão na teia de dona aranha, conselheira devotada e tecelã paciente, que coseu fio após fio enquanto o exortava a saltar.

Notas a uma religião implícita

No século XIX, os Estados, dominados pela revolução, baniam ordens religiosas, expropriavam conventos, vetavam a missa e a procissão, quando não partiam à deportação e ao assassínio direto de católicos – tudo ao gosto de Nero.

Na segunda metade do século XX, o clero, comandado desde Roma, mas há muito açulado e prontamente emulado nas Américas, infundiu-se de coragem e bradou, “Basta! A Igreja não mais será vítima mórbida das ideologias: há que ser protagonista!”. E, desde então, a fim de se guardar contra a inimizade do Estado, a Igreja preventivamente bane, expropria e veta a si própria.

A imprensa livre delira. Os chefes de Estado rejubilam. “Nunca convivemos tão bem!” Esmorece só o calendário, que remonta a dois milênios obscuros em um mundo ofuscado pelos anos 1960.

Os aforismos seguintes, de autoria do grande mestre colombiano Nicolás Gómez Dávila, escrutinam o Zeitgeist já não novo, conquanto animosamente renovado, que move a Igreja, a religião e a “espiritualidade” (o “Geist”, ora pois, de nosso “Zeit”) contemporâneas. Entre eles se vislumbra, outrossim, uma religião que já não há, de uma civilização que se foi, mas fora da qual não se logra em verdade viver.

“Mis convicciones son las mismas que las de la anciana que reza en el rincón de una iglesia.” 

VENTOS DE MUDANÇA

«Antigamente, os tontos atacavam a Igreja; agora a reformam.»

«A crise atual do cristianismo não foi provocada pela ciência, ou pela história, mas pelos novos meios de comunicação. O progressismo religioso é o empenho de adaptar as doutrinas cristãs às opiniões patrocinadas pelas agências de notícias e pelos profissionais da publicidade.»

«Sobre o campanário da igreja moderna, o clero progressista, em vez de cruz, coloca um cata-vento.»

«Mais que um vento de traição, sobre o clero moderno sopra um furacão de estupidez.»

«A obediência do católico converteu-se em uma infinita docilidade para com todos os ventos do mundo.»

OS NOVOS MANDAMENTOS

«O clero moderno resolveu retificar a ordem dos mandamentos evangélicos. Assim, omitindo Deus, ordena amar ao próximo sobre todas as coisas.»

«Colocar o “próximo” no lugar de Deus havia sido o propósito do protestantismo liberal do século passado, e do progressismo católico pós-conciliar.»

«Ocupar-se intensamente da condição do próximo permite ao cristão dissimular suas dúvidas sobre a divindade de Cristo e a existência de Deus. A caridade pode ser a forma mais sutil da apostasia.»

«A Igreja pós-conciliar pretende atrair o rebanho ao traduzir, para a linguagem insípida da diplomacia vaticana, os lugares-comuns do jornalismo contemporâneo.»

«A Igreja, ao abrir e escancarar suas portas, quis facilitar a entrada aos de fora, sem pensar que mais facilitava a saída aos de dentro.»

«O moderno trocou a Imitação de Cristo pela paródia de Deus.»

«A inépcia e a sandice do palavrório episcopal e pontifício nos turbariam, se nós, cristãos velhos, não houvéssemos aprendido, felizmente, desde pequenos, a dormir durante o sermão.»

«Não conseguindo que os homens praticassem o que ela ensina, a Igreja atual resolveu ensinar o que eles praticam.»

“HERI, HODIE, CRAS”

«A Igreja antiga pôde adaptar-se ao mundo helênico, porque a civilização antiga era de índole religiosa. No mundo atual, a Igreja se corrompe caso ceda.»

«A Igreja pôde batizar a sociedade medieval, pois era uma sociedade de pecadores. Mas seu porvir não é lisonjeiro na sociedade moderna, onde todos se creem inocentes.»

«A Igreja evitou sua esclerose em seita exigindo ao cristão que exigisse perfeição a si mesmo, não que a exigisse do vizinho.»

CRISTO HISTÓRICO

«A história do cristianismo revela ao cristão como Cristo quis estar presente na história. Pretender apagar essa história para retornar apenas ao Cristo evangélico não é gesto de devoção, e sim de orgulho.»

«O clero moderno afirma que o cristianismo pretende resolver os problemas terrestres – confundindo-o, assim, com a utopia.»

«O clero moderno crê poder aproximar melhor o homem a Cristo ao insistir sobre a humanidade de Jesus. Esquecendo, assim, que não confiamos em Cristo porque é homem, mas sim porque é Deus.»

«O clero moderno, para salvar a instituição, trata de se desvencilhar da mensagem.»

«Os católicos não suspeitam que o mundo sinta-se enganado a cada concessão que o catolicismo lhe faz.»

«O que acontece em tempos de incredulidade não é que os problemas religiosos pareçam absurdos, mas que não pareçam problemas.»

«Desejar que o cristianismo não faça exigências absurdas é pedir-lhe que renuncie às exigências que comovem nosso coração.»

LITURGIA, ARTE, EDUCAÇÃO, CIVILIZAÇÃO

«A liturgia atual protocoliza o divórcio secular entre o clero e as artes.»

«A aproximação à religião por intermédio da arte não é capricho de esteta: a experiência estética tende espontaneamente a prolongar-se em premonição de experiência religiosa. Da experiência estética, regressa-se como do vislumbre dos traços divinos.»

«Não sei se o diabo castiga, no outro mundo, a sociedade irreligiosa. Mas vejo que aqui, de cara, quem a castiga é a estética.»

«Sem rotinas religiosas, as almas desaprendem os sentimentos sutis e finos.»

«O cristianismo degenera, ao abolir seus velhos idiomas litúrgicos, em seitas toscas e extravagantes. Rompido o contato com a antiguidade grega e latina, perdida sua herança medieval e patrística, qualquer bobalhão converte-se em seu exegeta.»

«Os novos liturgistas suprimiram os púlpitos sacros para que nenhum maldoso sustente que a Igreja pretende rivalizar com as cátedras profanas.»

«A Igreja educava; a pedagogia do mundo moderno tão somente instrui.»

«A importância profana da religião está menos em sua influência sobre nossa conduta que na nobre sonoridade com a qual enriquece a alma.»

IGREJA, ESTADO, TERRENISMO E DEMOCRATITE

«A separação entre Igreja e Estado pode convir à Igreja, porém é funesta ao Estado, porque o entrega ao maquiavelismo puro.»

«O cristão moderno sente-se obrigado profissionalmente a mostrar-se jovial e jocoso, a exibir os dentes em sorriso benevolente, a professar cordialidade viscosa, tudo para provar ao incrédulo que o cristianismo não é religião “sombria”, doutrina “pessimista”, moral “ascética”. O cristão progressista nos cumprimenta com um largo sorriso de candidato em eleição.»

«A Igreja contemporânea pratica perfeitamente um catolicismo eleitoral: prefere o entusiasmo das grandes multidões às conversões individuais.»

«Os que substituem a “letra” do cristianismo por seu “espírito” geralmente o convertem em uma patacoada sócio-econômica.»

«O amor à pobreza é cristão, porém a adulação ao pobre é mera técnica de recrutamento eleitoral.»

«A heresia que ameaça a Igreja em nosso tempo é o “terrenismo”.»

«A função da Igreja não é adaptar o cristianismo ao mundo, tampouco adaptar o mundo ao cristianismo. Sua função é a de manter um contramundo no mundo.»

«Nem as religiões originaram-se da urgência de assegurar a solidariedade social, nem as catedrais foram construídas para fomentar o turismo.»

«Os problemas humanos não são nem exatamente definíveis, nem remotamente solúveis. Quem espera que o cristianismo os resolva deixou de ser cristão.»

«Que o cristianismo não resolva os problemas sociais não é razão para apostatar, a não ser aos que esquecem que nunca prometeu resolvê-los.»

«Os períodos de estabilidade política são períodos de estabilidade religiosa.»

«O teólogo moderno anseia transformar a doutrina cristã em simples ideologia de comportamentos comunitários.»

«Para democratizar ao cristianismo, têm de adulterar os textos, lendo “igual” onde dizem “irmão”.»

«O cristão atual não se compadece de que os demais não lhe estejam de acordo, mas de não estar de acordo com os demais.»

«”Reino de Deus” não é nome cristão de um paraíso futurista.»

PECADO, DOGMA, HERESIA

«Os católicos perderam até a simpática capacidade de pecar sem argumentar que o pecado não existe.»

«Quando o católico defende-se melhor contra os vícios do que contra a heresia, já é pouco o cristianismo que sobra em sua cabeça.»

«A evolução do dogma católico é menos evidente que a de sua teologia. Os católicos de pouca teologia cremos, no fim, o mesmo que o primeiro escravo convertido em Éfeso ou Corinto.»

«O cristão moderno não pede que Deus o perdoe, mas que reconheça que o pecado não existe.»

«A explicação da experiência religiosa não se encontra nos manuais de psicologia. Ela habita nos dogmas da Igreja.»

«Sermos cristãos à moda atual consiste menos em arrependermo-nos de nossos pecados, que em arrependermo-nos do cristianismo.»

O “CATÓLICO DE ESQUERDA”

«Em seu afã pueril e vão de seduzir o povo, o clero moderno concede aos programas socialistas a função de esquemas realizadores das Bem-Aventuranças. O truque consiste em reduzir a uma estrutura coletiva e externa ao indivíduo, um comportamento ético que, se não é individual e interno, não é nada.O clero moderno prega, em outros termos, que há uma reforma social capaz de apagar as conseqüências do pecado. Do que se pode deduzir a inutilidade da redenção por Cristo.»

«O diálogo entre comunistas e católicos tornou-se possível a partir do momento em que os comunistas falsificaram Marx, e os católicos, Cristo.»

«Para poder aliar-se ao comunista, o católico de esquerda sustenta que o marxismo critica meramente as acomodações burguesas do cristianismo, quando é sua essência o que ele condena.»

«O erro do cristão progressista está em crer que a polêmica perene do cristianismo contra os ricos é uma defesa implícita dos programas socialistas.»

«O católico de esquerda acerta ao descobrir no burguês o rico da parábola, mas erra ao identificar o proletariado militante com os pobres do Evangelho.»

«Indignado com o burguês que “tranquiliza sua consciência” distribuindo esmolas de seu próprio pecúlio, o católico de esquerda propõe-se a fazê-lo abnegadamente repartindo o pecúlio alheio.»

PROTESTANTISMO

«A Igreja primitiva foi sempre a desculpa favorita do herege.»

«Que os Evangelhos sejam reflexo da Igreja primitiva é tese aceitável para o católico, mas letal para o protestantismo. Enquanto o protestante depende de um texto, os católicos somos o processo no qual o texto nasceu. Cristo, ao morrer, não deixou documentos, senão discípulos.»

«Mesmo para a compaixão budista o indivíduo é apenas sombra que desvanece. A dignidade do indivíduo é marca cristã sobre argila grega.»

 PÁTRIA DE HOMENS, PÁTRIA DE DEUS

«O problema básico de toda antiga colônia – o problema da servidão intelectual, da tradição mesquinha, da espiritualidade subalterna, da civilização inautêntica, da imitação forçada e vergonhosa – foi para mim resolvido com máxima simplicidade: o catolicismo é minha pátria.»

EPÍLOGO

«Para aliviar a barca cristã, que emborca em águas modernas, a teologia liberal livrou-se ontem da divindade de Cristo, e a teologia radical hoje se livra da existência de Deus.»

«Os Evangelhos, em mãos do clero progressista, degeneram em recompilação de trivialidades éticas.»

«A fim de se adaptar à “mentalidade moderna”, o cristianismo converteu-se em uma doutrina que não é difícil abraçar; nem interessante.»

«O problema religioso agrava-se a cada dia, pois os fiéis não são teólogos, e os teólogos não são fiéis.»

«O mais inquietante na atitude do clero atual é que suas boas intenções pareçam, com freqüência, inquestionáveis.»

«Tratando-se do conhecimento do homem, não há cristão (desde que não seja cristão progressista) a quem alguém tenha algo a ensinar.»

«Porque ouviu dizer que as proposições religiosas são metáforas, o tonto pensa que são ficções.»

«Onde o cristianismo desaparece, cobiça, inveja e luxúria inventam mil ideologias para justificar-se.»

«Diante da Igreja atual (clero – liturgia – teologia), o católico velho indigna-se primeiro, assusta-se depois, e finalmente cai na gargalhada.»

«A Igreja necessitará séculos de oração e de silêncio para forjar novamente sua alma amolecida.»

«O verdadeiro cristão não deve resignar-se ao inevitável: deve confiar na impertinência de uma oração reiterada.»

(Introdução, seleção e tradução por Leonardo Faccioni)